sábado, 13 de novembro de 2010

Genética das Calopsitas

A Genética é um assunto que pode parecer complicado e assustador de início, mas depois de um tempo de estudo vê-se que é muito simple e essencial para um criador de aves que deseja prever seu filhotes e saber quais casais formar.

Pra começar vamos fazer uma pequena introdução para relembrar as aulas de genética ok?
Quem achar que já sabe o bastante desse assunto vá direto para o item 2.


1) As bases da genética em aves

 Todo ser vivo é costituido de células, incluindo humanos e aves. Nessas células estão contidas as informações genéticas de cada individuo. O DNA (que se encontra condensado nos cromossomos) possui os genes responsáves pelas características físicas como tamanho, cor dos olhos, cor da pele, cor do cabelos e nas aves a cor das penas.

 Tanto nos seres humanos quanto nas aves os cromossomos se apresentam em pares. Logo, os genes também estão em pares ( cada par é chamado de alelo, assim, cada gene possui dois alelos).
Assim para uma criança ter olhos azuis essa informação deve vir de ambos os pais, mesmo que nenhum deles apresente essa característica física. Isso ocorre porque o olho azul não é uma característica dominte e sim recessiva.

Acompanhe o esquema abaixo. Nós vamos representar o caráter castanho com C, enquanto o caráter azul vai ser c. Suponha que ambosos pais possuam olhos castanhos mas que carreguem o alelo que dá o caráter azul. Eles no entanto não possuem olhos azuis porque o caráter dominante é o castanho, por tanto só é preciso ter um alelo para que os olhos sejam castanhos (assim a pessoa pode ser CC ou Cc). Para ter o olhos azuis a pessoa precisa ter os dois alelos iguais, pois este é um caráter recessivo (ou seja, cc).

Na tabela abaixo estão as possíveis combinações que podem surgir em um filho deste casal de olhos castanhos. Como se pode perceber há 4 combinações possíveis: ou o filho é CC, Cc, cC (nos três casos o filho terá olhos castanhos, todos possuem o alelo dominante C) ou cc (nesse caso o filho terá os olhos azuis, pois terá os dois alelos recessivos c). Há uma coisa que dá para entender neste momento, a diferença de genótipo para fenótipo. O genótipo neste caso são as 4 combinações possíveis dos alelos enquanto fenótipo é como a característica se apresentou no corpo (olhos castanhos ou azuis). Assim temos três genótipos (CC,Cc,cC) possíveis para o mesmo fenótipo (olhos castanhos).

Pai Cc


                                                               Alelo C              Alelo c

Mãe Cc             Alelo C                           CC                       Cc

                         Alelo c                              cC                        cc


É meio complicado, mas lendo umas três vezes dá para entender. O gene original, que na genética é chamado de selvagem, é o que define a cor castanha. A cor azul é uma mutação desse padrão selvagem (nada mais que uma mudança qualquer no DNA, que mudou o original para outra coisa). Nas calopsitas, o padrão selvagem de coloração das penas é aquele que aparece no padrão cinza. Todos os outros padrões são mutações desse selvagem. Abaixo, serão explicadas como cada mutação ocorre e é passada para os filhos.



2) As abreviações usadas




Para o texto que vem a seguir, são usadas as seguintes abreviações para cada padrão de cor das calopsitas (em parêntese, o nome em inglês). Obs: nem todos padrões estão aqui elencados.

• Canela (cinnamon) – C

• Lutino (lutino) – L

• Pérola (pearl) – P

• Arlequim (pied) – p

• Fulvo (fallow) –f

• Prata recessivo (recessive silver) – s

• Prata dominante (dominant silver) – S

• Cara branca (whiteface) – w

• Cara amarela (yellowcheek) – Yc

• Pastel (pastel face) – pa

• Oliva (spangle) – sp

• Não mutado – NN

 
 
3) Mutações ligadas ao sexo




Como já discutido acima, os seres vivos possuem cromossomos. Os seres humanos possuem 23 cromossomos; mas, como já dissemos, eles estão em pares. Então, temos um total de 46 cromossomos (ou 23 pares). Só que há um par que é especial, e que carrega a nossa informação sexual, definindo se seremos homens ou mulheres. Nas mulheres, esse par é feito de dois cromossomos chamados X. Já nos homens, há um cromossomo X e outro chamado Y.

Para complicar nossa história, acontece o mesmo nas aves, só que a situação é invertida. Os machos é que são XX, enquanto as fêmeas são XY. E por que isso é importante para nós? Porque há certas cores (vamos chamar agora pelo nome certo: mutações) que estão justamente no cromossomo X, ou seja, os genes que carregam essas mutações estão nesse cromossomo. O gene Y, por sua vez, não carrega nenhum gene que define coloração de pena.

Novamente: por que isso é importante? Aí nos temos que voltar naquela explicação de cima sobre os olhos castanhos e azuis. Quando um macho e uma fêmea são cruzados, metade da prole (filhotes) vai ser fêmea (XY) e a outra metade vai ser macho (XX). E para que uma mutação apareça (como no caso dos olhos azuis), ela precisa estar nos dois cromossomos X (no caso do macho) ou apenas no único X da fêmea.

                                                                                         Macho XX


                                                                 Cromossomo X                 Cromossomo X

Fêmea XY        Cromossomo X                   XX (macho)                         XX (macho)

                         Cromossomo Y                   XY (fêmea)                          XY (fêmea)




Nas calopsitas, há cinco mutações ligadas ao sexo: canela, lutino, pérola, cara amarela e platinum. Assim, se uma fêmea é lutino, ela carrega o gene L no cromossomo X. Já o macho, para ser lutino, deve carregar o mesmo gene L nos DOIS cromossomos X. Se ele só tiver o gene L em um dos cromossomos, aí ele vai ser padrão normal, apesar de carregar o gene lutino (em inglês, eles chamam isso de uma ave split para lutino). Se você estiver acompanhando o raciocínio, vai perceber que as fêmeas não podem ser split para esses fatores, porque ou elas são ou não são da cor que o gene X carrega.

Mas por que o macho, mesmo tendo um gene L, é padrão selvagem cinza? Por que, como já dito lá em cima, esse é o padrão dominante, e basta ter um gene dele (não precisa dos dois, como no caso do lutino).

Vamos complicar um pouco mais. E se um macho é XCXP, ou seja, possui o gene C (canela) em um cromossomo e o gene P (pérola) no outro? Nesse caso, ele vai ser cinza também, pois ele não tem nenhum gene em dobro. Mas ele vai ser split para esses dois fatores (ou seja, ele carrega os dois genes).

Por fim, por que nos interessa todo esse negócio de split? Porque isso é vital para quem quer reproduzir calopsitas. Vamos voltar àquela nossa tabelinha, mas com outra situação.

                                                                                                     
 
Pelo esquema, podemos ver que teremos dois machos cinzas, sendo que um deles carrega o gene L (XNXL) e outro não (XNXN), e duas fêmeas, sendo uma cinza (XNY) e outra lutino (XLY). Assim, mesmo um macho cinza (XNXL) cruzado com uma fêmea cinza (XNY) pode gerar filhotes lutinos, justamente porque o pai é split para o gene lutino (ou seja, ele carrega o gene L).


Nesse tópico, há uma última pergunta: porque vemos calopsitas que são pérola-canelas, ou lutino-pérolas? Isso ocorre quando os genes que definem as mutações ocorrem NO MESMO cromossomo X. Assim, uma fêmea pérola-canela é XCPY. Já um macho, para ser pérola-canela, deve ser XCPXCP. Se ele for apenas XNXCP, ele será cinza, mas split para pérola-canela.


Na tabela abaixo há alguns exemplos dessas mutações.



4) Mutações recessivas


Se você chegou até aqui, vai ser recompensado pela coragem. A parte mais difícil já passou. Se você entendeu até aqui, vai ser fácil o resto.

Há cinco outras mutações que não estão ligadas ao cromossomo sexual X, mas a qualquer outro cromossomo autossômico (é só mais um nome: é só para indicar aqueles cromossomos que não o sexual). Essas mutações são arlequim, cara branca, fulvo, prata recessivo e oliva.

Mas qual é a diferença de ser ou não ligado ao X? A diferença é que todos os outros cromossomos podem carregar caracteres que atribuem cor, coisa que o Y não faz. Desse modo, mesmo as fêmeas precisam ter os dois alelos de um gene para apresentar a mutação visualmente, um em cada cromossomo (no caso ligado ao sexo, bastava a elas ter o gene em um só cromossomo, no X). Outra decorrência disso é que agora as fêmeas também são split para essas mutações.

Nesse caso, nossa tabela vai mudar. Não precisamos mais indicar os genes junto com o cromossomo. Se tivermos um macho e uma fêmea normal split para cara branca, teremos três filhotes normais (NN, Nw w wN) e um cara branca (ww). Nesse caso, não é possível definir qual será macho ou fêmea, pois essas cores não estão ligadas ao fato do filhote ser macho (XX) ou fêmea (XY).

 
 
 
Se você estiver afim, vamos continuar e juntar as duas informações até agora. E se misturarmos mutações recessivas e ligadas ao sexo? Vamos ver: cruzamos um macho normal split para canela lutino e arlequim e uma fêmea pérola split para arlequim.
 
 
 
 
O que temos dessas 16 possíveis combinações?




Há uma sexta mutação também recessiva, a pastel face. Em termos de coloração, ela é idêntica à cara amarela, mas em termos de genética não (a mutação cara amarela é ligada ao sexo). Só que essa mutação tem uma característica diferente das outras recessivas: ela é dominante sobre a mutação cara-branca. Isso quer dizer que, se você tiver um pássaro cara branca e pastel, ele irá aparecer visualmente com a coloração pastel, mas não cara-branca.











5) Mutações dominantes



Há três mutações que, assim como o padrão selvagem cinza, é dominante sobre as outras mutações: são elas a prata dominante, pastel dominante e cara amarela dominante. Como você deve estar lembrado, uma característica dominante precisa conter apenas um alelo para aparecer visualmente.


No caso da mutação prata dominante, quando há apenas 1 alelo S, é denominado prata single-factor (SF, ou fator simples) ou prata dominante diluído. Nesse caso, a calopsita possui uma cor prata diluída pelo cinza comum; acaba sendo uma calopsita cinza-prateada. Quando estão presentes os dois alelos S, então é denominado prata double-factor (DF, ou fator duplo). Nesse caso, o prata é muito mais visível, e as asas e rabo possuem coloração branco-amarelada. È muito fácil confundir essa mutação com a prata recessiva, mas a diferença está na cor dos olhos. Na dominante, os olhos são pretos e, na recessiva, vermelhos.



6) Albinos

 
Um albino não é resultado de apenas uma mutação, e sim de duas: lutino com cara branca. Como a mutação lutino resulta na ausência de melanina e a mutação cara-branca na de lipocromos, há como resultado um pássaro sem pigmentação alguma. Assim, geneticamente, o termo correto não é calopsita albina, e sim lutino-cara branca.

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